Cachorro que come as próprias fezes: por que a coprofagia acontece e como cortar o hábito sem briga nem castigo

Resumo
A coprofagia aparece em até 23% dos cães e quase nunca é falha de caráter. O hábito mistura instinto herdado do lobo, tédio, gula e medo de bronca. Recolher o cocô na hora, recompensar o cão logo após a eliminação, ensinar o deixa e ajustar a rotina corta a oportunidade e enfraquece o comportamento em algumas semanas de constância.
Tutora ajoelhada no quintal oferece petisco ao cachorro sentado na grama, recompensa que ajuda o cachorro que come as próprias fezes a mudar o hábito
Neste artigo

Você abre a porta do quintal e encontra seu cão mastigando alguma coisa com cara de quem foi pego no flagra. Era cocô. O dele mesmo. A cena dá nojo, assusta e costuma vir acompanhada de uma pergunta: o que há de errado com ele? Ter um cachorro que come as próprias fezes é bem mais comum do que parece, tem nome técnico (coprofagia) e, na maioria dos casos, não indica nenhum defeito de caráter nem falha sua como tutor.

Este texto funciona como um diagnóstico de comportamento. Primeiro você entende o que a pesquisa mostra sobre o hábito. Depois aprende a separar os perfis mais comuns, descobre por que o castigo piora tudo e monta um plano de manejo e treino que corta a oportunidade antes que o hábito se repita.

O que é coprofagia e quantos cães fazem isso?

Coprofagia é o ato de comer fezes. Quando o cão come as próprias fezes ou as de outro cão, os pesquisadores falam em coprofagia intraespecífica. Quando ele vai atrás do cocô do gato, de cavalo ou de outro bicho, a origem costuma ser diferente: muitas vezes é só busca por comida com cheiro forte.

O maior levantamento sobre o tema foi feito por pesquisadores da Universidade da Califórnia em Davis, com duas pesquisas online que somaram mais de 3 mil respostas de tutores. Segundo o estudo de Hart e colegas publicado na Veterinary Medicine and Science, 16% dos cães foram vistos comendo fezes pelo menos seis vezes, e cerca de 23% foram vistos fazendo isso ao menos uma vez. Em outras palavras: entre quatro e seis cães em cada grupo de 25 já passaram por essa fase.

Um detalhe chama atenção nos dados. Os cães que comem fezes eram tão fáceis de ensinar a fazer as necessidades no lugar certo quanto os outros. Isso sugere que eles sentem a mesma aversão natural ao cocô na área onde dormem e comem. O hábito parece ter uma lógica própria, e é ela que você precisa entender antes de tentar mudar qualquer coisa.

Por que o cachorro come as próprias fezes?

Não existe uma causa única. O comportamento aparece pela combinação de instinto, ambiente e aprendizado. Os fatores abaixo são os que mais aparecem na literatura de comportamento canino.

O instinto herdado do lobo

A hipótese mais interessante do grupo de Davis liga o hábito ao ancestral selvagem. Em 82% a 85% dos casos frequentes, os cães comiam fezes com no máximo dois dias. Muitos ovos e larvas de parasitas intestinais levam mais de dois dias para ficar infectantes nas fezes. Um lobo que remove o cocô fresco da área de descanso protege a matilha. Os próprios autores chamam a explicação de provisória, porque faltam observações de campo com lobos. Mesmo assim, ela ajuda a entender por que o cão vai direto no cocô recém-feito e ignora o velho.

A mãe e os primeiros dias de vida

Nas primeiras semanas, a cadela lambe os filhotes para estimular a eliminação e come as fezes deles para manter o ninho limpo. É um comportamento normal de cuidado materno. Alguns filhotes copiam a mãe e testam o cocô com a boca na fase em que exploram tudo pela boca. Na maioria, isso some sozinho com o amadurecimento.

Ambiente pobre, isolamento e tédio

Cão que passa muitas horas sozinho, preso em área pequena ou sem nada para fazer encontra no cocô um objeto disponível, cheiroso e manipulável. Conforme o guia de manejo do American Kennel Club, cães mantidos isolados em canis ou áreas afastadas da família têm mais chance de desenvolver o hábito do que cães que convivem perto das pessoas.

Se o seu cão mostra outros sinais de falta de ocupação, vale ler sobre os sinais de que ele precisa de mais estímulo mental.

Medo de castigo e busca de atenção

Aqui mora o ciclo mais cruel. O filhote faz cocô no lugar errado, o tutor briga, e o cão aprende que o cocô à vista traz problema. A solução que ele encontra é sumir com a prova. Na próxima vez em que o tutor vê o cão comendo fezes, briga de novo, e o hábito se fortalece. O inverso também acontece: se toda vez que o cão chega perto do cocô você corre, grita e persegue, o cocô virou o jeito mais rápido de ganhar sua atenção total.

Gula e disputa por comida

No estudo de Davis, 51,1% dos cães que comiam fezes foram descritos pelos tutores como comilões, contra 28,2% dos que não comiam. Foi o fator mais forte da análise. Casas com dois cães ou mais também tiveram mais casos. Cães muito motivados por comida, que engolem a ração em segundos, tendem a tratar qualquer coisa com cheiro intenso como recurso.

Cachorro preto e branco deitado sozinho no piso de cimento de uma área de serviço, com tigela vazia e pano dobrado ao lado

Quando procurar o veterinário antes do treino

O comportamento costuma ser só comportamento. Mas algumas condições clínicas aumentam o apetite ou atrapalham a absorção dos nutrientes, e aí o cão come fezes por outro motivo. Por isso, antes de qualquer plano de treino, leve seu cão ao médico-veterinário para descartar causa clínica. Isso vale ainda mais quando aparece algum destes sinais:

  • o hábito começou de repente em um cão adulto que nunca fez isso;
  • o cão emagreceu, mesmo comendo a quantidade de sempre;
  • a fome aumentou muito ou ele passou a revirar lixo e comer coisas que não são comida;
  • as fezes mudaram de cor, de consistência ou de frequência;
  • o cão é idoso e passou a comer as próprias fezes junto com outras mudanças de comportamento, como desorientação.

Descartada a parte clínica, o assunto volta para o campo do comportamento. Se houver medo intenso, agressividade ao ser interrompido ou sofrimento visível, um adestrador que trabalhe com reforço positivo ajuda a montar o plano junto com você.

Qual é o perfil do seu cão? Um diagnóstico rápido

Observe por uma semana quando, onde e como o hábito acontece. Anote a hora, se você estava por perto e o que tinha acontecido antes. Depois compare com a tabela.

PerfilO que você observaCausa provávelPrimeira ação
Filhote exploradorFilhote de até 6 meses, cheira e morde tudo, inclusive o cocôFase oral de exploração e imitação da mãeRecolher na hora e redirecionar para um brinquedo
Cão entediadoCome quando fica muito tempo sozinho no quintal ou na área de serviçoFalta de ocupação e ambiente pobreEnriquecimento ambiental e menos horas de isolamento
Cão que esconde a provaCome rápido, de olho em você, e foge quando é vistoHistórico de bronca por xixi ou cocô fora do lugarParar qualquer punição e reforçar a eliminação no local certo
Cão que busca atençãoPega o cocô quando você está olhando e corre para o jogo de pega-pegaReforço pela reação do tutorReagir com calma e chamar o cão para outra atividade
Cão comilãoEngole a ração em segundos e vasculha tudo atrás de comidaAlta motivação por alimentoRefeições mais lentas e manejo rigoroso do quintal
Mudança repentinaCão adulto ou idoso que nunca fez isso e passou a fazerPossível causa clínicaConsulta com o médico-veterinário antes de treinar

Muitos cães se encaixam em mais de um perfil. Um filhote comilão que passa o dia sozinho junta três fatores de uma vez. Nesse caso, ataque primeiro o que você controla com mais facilidade: o acesso ao cocô.

Por que brigar, esfregar o focinho ou castigar não funciona

O impulso de dar bronca é compreensível. O problema é o que o cão aprende com ela. Ele não liga a bronca ao ato de comer fezes como uma regra moral. Ele liga a bronca à sua presença perto do cocô. O resultado costuma ser um cão que espera você sair para fazer cocô, que come mais rápido para não ser pego ou que passa a fazer as necessidades escondido atrás do sofá.

Esfregar o focinho no cocô, gritar ou borrifar água não ensina comportamento alternativo nenhum. Só aumenta o estresse, e o estresse é um dos combustíveis do hábito. Cães estressados mostram sinais discretos, como lamber os lábios, bocejar fora de hora e evitar o olhar. Se você reconhece isso no seu, o texto sobre os sinais silenciosos do estresse canino ajuda a ler o que ele está sentindo.

Outro dado do estudo de Davis serve de alerta realista. Os tutores relataram taxas de sucesso perto de zero com a maioria das tentativas que fizeram, incluindo produtos vendidos para isso e treinos isolados. Os pesquisadores observam que não registraram se as instruções foram seguidas. A leitura prática é esta: uma técnica sozinha raramente resolve. O que funciona é a combinação de manejo constante, rotina e treino, mantida por semanas.

Plano em 7 passos para cortar o hábito sem briga

O objetivo não é convencer o cão de que cocô é ruim. É fazer com que ele quase nunca tenha a chance de repetir o comportamento, enquanto aprende algo mais vantajoso para fazer logo depois de evacuar.

  1. Recolha na hora, sempre. Esse é o passo que mais pesa. Se o cocô não está lá, o cão não come. Acompanhe o cão nos momentos de eliminação durante as próximas semanas e recolha em seguida, sem pressa visível e sem drama.
  2. Aprenda o relógio intestinal dele. A maioria dos cães evacua de 15 a 30 minutos depois de comer, ao acordar e depois de brincar. Saber esses horários permite que você esteja presente nos momentos certos.
  3. Use a guia no quintal por um tempo. Durante o treino, leve o cão na guia até o local de eliminação. Assim você controla a distância entre o focinho e o cocô sem precisar correr atrás dele.
  4. Recompense logo depois do cocô. Assim que ele terminar, chame com voz animada, ande alguns passos para longe e entregue um petisco de alto valor. Em poucas repetições o cão começa a virar para você assim que termina, em vez de virar para o chão.
  5. Ensine o “deixa” com calma. Treine o comando primeiro com objetos neutros, depois com comida, e só então use perto do cocô. Quem já trabalha o treino de controle de impulso tem metade do caminho pronto.
  6. Fortaleça a chamada. Um cão que volta quando chamado pode ser interrompido sem perseguição. Se a chamada ainda falha, siga o passo a passo para ensinar seu cão a vir quando chamado antes de depender dela no quintal.
  7. Mantenha por pelo menos 6 a 8 semanas. Hábitos repetidos por meses não somem em dez dias. Mantenha o manejo mesmo quando parecer resolvido e só então diminua a supervisão aos poucos.
Cachorro caramelo farejando ração escondida em um tapete de faro cinza na sala, com brinquedo recheável de borracha ao lado

Como ajustar a rotina e o ambiente para reduzir a vontade

O treino trabalha a resposta do cão. A rotina trabalha a vontade. As duas frentes precisam andar juntas.

Refeições em horário fixo e mais lentas

Alimentar o cão nos mesmos horários, com a mesma quantidade, deixa a eliminação mais previsível e facilita o recolhimento. Para os comilões, transformar a refeição em atividade ajuda bastante: tapetes de faro, bolinhas dispensadoras e brinquedos recheáveis fazem a comida durar mais e ocupam a cabeça. O guia de enriquecimento alimentar e comedouro lento traz ideias para começar com o que você já tem em casa. Mantenha também a área de comer longe da área de fazer as necessidades.

Menos horas de isolamento, mais ocupação

Se o cão passa o dia no quintal sem companhia, distribua atividades ao longo do dia: um brinquedo recheado antes de sair, uma sessão curta de faro na volta, um passeio com tempo livre para cheirar. Cão ocupado e cansado mentalmente procura menos distração no chão.

Caixa de areia do gato fora do alcance

Muitos cães que ignoram o próprio cocô adoram as fezes do gato. Coloque a caixa em local elevado, use modelo com tampa e entrada lateral ou instale um portão que só o gato consiga atravessar.

Calma na hora do flagra

Se você pegar o cão no ato, respire. Não grite e não corra. Chame-o com voz neutra ou animada, ofereça algo melhor e afaste-o do local. Depois recolha. A reação tranquila tira o valor de atenção que o cocô pode ter ganhado.

Filhote que come fezes: fase passageira ou hábito?

Em filhotes, a coprofagia costuma ser uma fase. Eles exploram o mundo pela boca, imitam a mãe e ainda não têm rotina definida. O risco está na forma como você reage nessa época. Bronca por cocô no lugar errado é justamente o que transforma uma curiosidade passageira no hábito de esconder a prova.

O caminho mais seguro é cuidar bem do treino de higiene: levar o filhote ao local certo nos horários previsíveis, recompensar o acerto e limpar o erro sem comentário. O método completo está no guia sobre como ensinar o filhote a fazer xixi no lugar certo, que vale igualmente para o cocô. Se o hábito continua forte depois dos 9 a 12 meses, trate como comportamento instalado e siga o plano completo de manejo e treino.

O que esperar ao longo das semanas

Tutores costumam desistir cedo porque esperam uma mudança rápida. A tabela abaixo mostra uma linha de evolução comum quando o plano é seguido com constância. Cada cão tem seu ritmo, então use como referência, não como prazo.

PeríodoO que você fazO que costuma mudar
Semana 1Observa e anota, recolhe tudo na hora, para qualquer broncaMenos oportunidades; o cão ainda tenta quando acha cocô
Semanas 2 e 3Recompensa logo após a eliminação, treina “deixa” com objetosO cão começa a olhar para você depois de evacuar
Semanas 4 a 6Usa “deixa” e chamada perto do local, reforça rotina e enriquecimentoTentativas ficam raras e mais fáceis de interromper
Semanas 7 e 8 em dianteReduz a supervisão aos poucos, sem abandonar o recolhimentoHábito enfraquecido; recaídas pontuais em dias de muito tédio

Recaídas acontecem e não significam que o trabalho foi perdido. Quando surgirem, volte um passo no plano, aumente a supervisão por alguns dias e revise a rotina. Uma mudança de casa, a chegada de outro animal ou dias seguidos sem passeio costumam explicar o retorno do hábito.

Seu cão não está sendo nojento de propósito. Ele está repetindo algo que, por instinto ou por aprendizado, faz sentido para ele. Quando você tira a oportunidade, ensina uma alternativa que vale mais e para de dar ao cocô o poder de atrair sua atenção, a balança muda de lado.

Perguntas frequentes sobre cachorro que come as próprias fezes

Cachorro que come as próprias fezes está com fome?

Nem sempre. Cães comilões têm mais chance de desenvolver o hábito, mas a maioria come fezes por instinto, tédio ou aprendizado, mesmo recebendo a quantidade certa de alimento. Se a fome aumentou de repente ou o cão está emagrecendo, leve-o ao médico-veterinário para descartar causa clínica antes de mudar a rotina.

Com que idade o filhote para de comer cocô?

Em muitos filhotes o hábito some sozinho entre os 6 e os 12 meses, à medida que a fase de explorar tudo pela boca passa. Isso depende de como o tutor reage. Broncas por cocô no lugar errado podem fixar o comportamento, enquanto recolher na hora e recompensar o acerto ajuda a encerrar a fase.

Esfregar o focinho do cachorro no cocô ajuda a parar?

Não ajuda e costuma piorar. O cão não entende a punição como regra sobre comer fezes. Ele passa a associar sua presença ao perigo e pode começar a comer o cocô mais rápido ou a evacuar escondido para não ser pego. Manejo, rotina e reforço do comportamento certo funcionam melhor.

Por que meu cachorro come o cocô do gato?

As fezes do gato têm cheiro forte de proteína, e muitos cães as tratam como petisco. Esse caso tem menos relação com o instinto de limpar a área de descanso. A solução mais eficiente é tirar o acesso, com caixa de areia elevada, modelo com tampa ou portão que só o gato consegue atravessar.

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Quem escreveu este guia
Edson Dionisio

Fundador do Instinto Pet e estudioso dedicado ao comportamento e à etologia canina. Reúne conteúdo pesquisado e fundamentado na ciência do comportamento animal para ajudar tutores a entender e educar seus cães com métodos positivos.

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